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15/05/2009

Continuando nas Nuvens.....


Foram exatamente quinze dias.


Não houve sequer como despedir do super homem que havia de repente se tornado tão humano, nem do humano ateu que passou a ter fé.

Não havia tempo para sofrer, chorar ou lamentar. Haveria tempo suficiente depois. Muito tempo talvez, tempo demais, tempo que não devia ter dado tempo de sofrer.

Era preciso cuidar dela, mas cada vez que eu entrava no quarto eu tinha vontade de sair correndo. Não era medo, não era dor. Era o não entender o que estava acontecendo.

Haviam poucos momentos em que eu achava que ela estava lúcida e me reconhecia, seu leito já cheirava a morte, seu quarto já cheirava a dor. Eu tentava alimentá-la de qualquer jeito, eu socava os remédios até virarem um farelo e tentava fazer com que ela tomasse toda a sopa. Ela me interrompia de modo brusco.

- Por que você está fazendo isso? Por que insiste que eu me alimente? Eu estou enjoada, eu vou acabar vomitando na frente de todas estas pessoas.

Nós estávamos sozinhas, éramos só eu e ela no quarto impregnado de dor.

Eu não queria estar ali, mas eu precisava estar ali.

Durante o dia era mais fácil, tinha a companhia de Mara e sua constante supervisão, orientação, apoio e decisão, porque eu não conseguia sequer decidir o que eu podia pensar naquelas horas, mas as noites eram duras.

Eu deitava ao lado de David e deixava a porta do quarto aberta, esticava o pescoço e conseguia vê-la, a respiração irregular, as gotas do soro que caíam uma a uma como uma alfinetada dentro da minha dor.

Eu parei na porta com receio de entrar, eu não sabia como ela ia me chamar, eu não sabia se ela hoje lembraria de mim.

- Sophia? É você?

- Sim, sou eu mãe, o que foi? Precisa de alguma coisa?

- Sophia, como está seu pai? Me diga, eu preciso saber. Sophia, eu o vi, ele não está mais aqui, ele está em um outro lugar, na casa de uma moça toda vestida de branco, ele está com ela, e a moça me disse que era para eu ir também morar com eles que se eu for eu vou ficar boa. Sophia, ele me disse que se eu for ele vai me ajudar. Eu acredito nele!

- E o que a senhora resolveu mãe? Tive que perguntar.

- Eu acho que vou morar com eles, vou ficar boa.

Eu não podia dizer a verdade a ela. Como eu diria? – Mãe, ele está morto há dias e há dois meses que você não anda mais, você nunca foi a casa alguma, você não saiu deste quarto e eu não saí do seu lado. Mas era eu que não entendia nada agora ou não queria entender.

Eu estava tão cansada! Foi como a repetição de um dia distante. O banho quente, deitei no sofá, tive o mesmo sonho, as nuvens, ela estava lá, mas não estava sozinha, ela estava com ele. O barulho que me incomodava. Eu me via novamente saindo das nuvens e eu sabia para onde ir. O telefone que tocava. A mesma hora, quinze dias atrás, a repetição.

Eu não atendi ao telefone, mas ouvi Mara atendê-lo no segundo andar. Continuei deitada e de olhos fechados ouvindo seus passos descendo a escada, a porta sendo aberta lentamente, o olhar que me procurava. Não era necessário dizer nada. Ela estava morta. Seus últimos dias não foram ao nosso lado. Não tínhamos forças ou condições de mantê-la conosco, foi preciso levá-la para longe de nós, pelo menos pelo tempo que não podíamos ficar com ela lá.

Mas desta vez eu estava livre para chorar, não havia porque não fazê-lo. E eu chorei, chorei talvez tempo demais.

Dois meses depois eu chorei ainda mais, muito mais que podia imaginar que choraria. As lágrimas brotavam como uma fonte e eu não podia segurá-las, eu não queria segurá-las, eu queria que elas inundassem toda a sala de cirurgia onde eu estava deitada. Eu queria que o mundo enxergasse as minhas lágrimas, eu precisava mostrá-las para o universo.

O médico espantado com meu pranto, enfiou o rosto pela tenda verde e me perguntou:

- Você está bem?

- Estou, eu estou bem, muito bem!

Depois de tanto tempo eu estava chorando, de alívio, de alegria.

Não importa quanta dor eu tivesse sentido, quanta dor eu tivesse vivido, não importava mais nada, a não ser que eu tinha conseguido, eu tinha vencido tudo, e estava pronta para segurar o meu pequeno bebê que acabara de nascer e seguir adiante com a minha família.

O passado simplesmente passou e deixou lembranças e muitas lições dentre as quais uma frase que Mara me disse um dia, logo depois de termos enterrado os nossos pais:

O que Deus uniu, o homem não separa.



Fim



(O vídeo é do Skank, a música é nova e é linda, ouça!)

 

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