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14/05/2009

Nuvens......



Eu sabia que estava sonhando. Eu estava cansada, tomei um banho demorado e quente e joguei meu corpo pesado no sofá. A barriga já estava tão grande que não havia mais como deitar de costas e sobrava pouco sofá onde ajeitei o telefone, eu sabia que ele ia tocar. Eu estava sonhando, eu andava entre as nuvens, não sentia calor, nem frio, ele estava lá, mas eu só podia senti-lo, não podia vê-lo. Algo me chamou à atenção, um barulho distante, eu vim andando no meio das nuvens, eu me via percorrer a imensidão nublada, eu sabia para onde estava indo. O barulho do telefone tocando me arrancou do sonho de nuvens.

- Alô!

- Oi Sophia, sua irmã está ai?

- Não, ela não está respondi. Fale comigo Tita.

- Seu marido está? Ou mesmo seu cunhado? Tem alguém ai com você?

- Não Tita, eu estou sozinha, não tem ninguém comigo, eu sinto muito, mas você vai ter que falar comigo.

- Não Sophia, eu não quero falar com você, eu não posso falar com você, você está grávida, eu não posso.

- Tita, você não tem saída, você vai ter que me dizer que ele morreu. Diga, ele morreu?

- Sim, ele morreu, eu sinto muito ter que dizer isso para você.

Eu desliguei e mesmo antes que eu percebesse já estava ligando para o meu marido e implorando que viesse para casa. Eu não estava completamente sozinha, ela estava lá no quarto, talvez tentando lembrar do meu nome. Eu não poderia chorar, ela não podia me ouvir chorando, talvez em um pequeno momento de lucidez que ela tivesse ela se lembraria de quem era eu, ou mesmo ela e ela podia perguntar alguma coisa e eu não saberia como responder.

Em apenas 5 minutos David já estava em casa e me amparava, me segurando pela barriga. Eu não chorava, eu não sabia exatamente o que deveria sentir naquela hora.

Quando Mara chegou, bastou ver o carro de David parado à frente do portão, ela já desceu o pátio correndo em direção à minha casa, não foi preciso palavras, as lágrimas rasas e mudas que caíam do meu olhar vago já diziam tudo.

Foram horas insanas, ora lembrando, ora lamentando, ora sofrendo, ora sorrindo pelo que não haveria mais, nunca mais. E eu ainda não podia chorar. Ninguém me deixava chorar. Sempre que as lágrimas surgiam alguém me lembrava daquele pequeno ser que eu carregava, no qual depositei todas as minhas esperanças de ser feliz novamente, e minhas lágrimas eram interrompidas, mas não a dor.

Pouca coisa podia ser feita por mim, eu não queria nada, eu só queria que tudo aquilo terminasse logo, porque eu sabia que nada daquilo me pertencia, ele não estava ali mais. Nada, era o que estava ali. O absolutamente nada. E todas aquelas pessoas que rodeavam seu corpo inerte não sabiam de nada.

Assim como fui arrastada por todos os lados daquela sala fria, depois para aquele lugar onde só a morte tinha voz entre os anjos de mármore, me arrastei para a cama no meio daquela longa tarde. Eu sabia que precisava dormir, porque quando a gente dorme a gente esquece. Mas o telefone insistia em tocar e tocar e tocar. David atendeu e me olhou com os olhos pesados, quase que implorando:

- É de Londres, é a sua irmã Ema, você vai atender? Ela precisa que você atenda!

- Oh David, por favor, diga a ela que estou dormindo, por favor. Eu não posso, eu não posso reviver tudo novamente, eu não posso enfrentá-la agora, eu não tenho forças, eu sou egoísta demais para me levantar daqui e dar a ela o que ela merece ou precisa. Eu sei que ela deve estar sofrendo muito mais que eu porque ela não está vivendo, ela só pode pensar e pensar, ela não teve o final que tivemos, eu sei, mas eu não posso. Eu não tenho forças.

David atendeu ao meu pedido e disse a ela que eu estava dormindo, ele sabia que eu não podia ajudá-la naquele momento.

Amanhã, eu pensei, amanhã eu ligo para ela, nós conversaremos e eu contarei tudo que ela quer ouvir, mas agora eu preciso dormir, eu preciso recuperar minhas forças. Fechei meus olhos e em uma prece muda, solitária e desesperada pedi a Deus que me desse quinze dias. Quinze dias de um pouco de paz de espírito, quinze dias para me fortalecer, quinze dias e ele podia fazer o que era melhor pra mim, para todos nós. Dormi.

Foram exatamente quinze dias.


(continua)

 

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