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08/08/2009

Chamar-lhe Pai!



Ele cheirava a suor e madeira, sempre! Tinha um porte atlético, gostava muito de jogar peteca no sol de 40 graus.

Ele não era de muito diálogo nem era muito afetuoso. Não era dado a abraços e carinhos, mas eu não sei por que isso nunca me incomodou.

Ele era meio bronco e até meio ignorante, mas o tempo de ter medo dele já havia passado. Ele era um dragão fumando, eu herdei isso dele, e mais algumas coisinhas, como o jeito de acender o cigarro ou de cruzar as pernas, quem sabe um pouco da ignorância?

Ele morava sozinho já há algum tempo, em um apartamento pequeno, quarto/sala, cozinha e banheiro, nos fundos da sua marcenaria.

No sábado ele foi almoçar na casa da mãe dele, como sempre fazia nos fins de semana.

Engraçado que quando ele voltou me disse que não gostava de almoçar lá, ela usava Pomarola na comida e Pomarola fazia mal para ele. Porém eu também usava Pomarola mas ele não sabia e talvez por isso não fazia mal.

Ele teve quatro filhos, o macho alfa e mais três mulheres.

Enquanto ele estava fora, seu filho, o macho merecedor dos prêmios o procurou em casa, mas como não o encontrou, deixou na bancada seu presente de dia dos pais, uma caixa de ferramentas muito bonita e foi embora. Ele não ligou no domingo para desejar feliz dia dos pais, achou que a caixa de ferramentas já era o suficiente.

No domingo acordamos cedo e enquanto ele visitava novamente sua mãe, fizemos uma faxina muito bem feita no apartamento, arrumamos a sua cama com os lençóis novos, nosso presente para ele. A filha mais velha fez Capeletti, sua comida preferida.

O esperamos para almoçar ansiosas e satisfeitas, ele ficaria feliz.

Almoçamos juntos, nosso último dia dos pais. Em poucas palavras ele disse ter ficado muito feliz com a faxina e com os lençóis novos.

Ele comentou que ganhou uma caixa de ferramentas, mas disse que não era presente o que ele queria. Acho que não deste tipo de “presente” que ele precisava.

O telefone tocou, era de New York, seus olhos brilharam de satisfação ao falar com a filha caçula. Ele sentia falta dela, ele falava dela, ele dizia que ia ficar bom e que ia visitá-la, mas naquele momento o telefonema bastava.

Cinco meses depois quando entramos pela primeira vez no “vazio” ela ainda estava lá, a caixa de ferramentas, no mesmo lugar onde foi deixada pelo seu filho, do mesmo jeito, na mesma bancada, mas ele já não estava mais entre nós.

A placa em sua última morada está desgastada pelo tempo, mas as palavras estão cravadas em nossa existência:

“Se nós pudéssemos escolher um pai, escolheríamos você. Sentimos orgulho de chamar-lhe pai”.








 

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